NovidadeObra autoral de Henrique Oliveira
O Terapeuta
As Crônicas de um Homem Mau
Um paciente. Onze cartas. Doze meses para descobrir se alguém pode ser salvo — e quem realmente precisa ser salvo.
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Sobre a intensidade de amar
Por Psicólogo Henrique Oliveira — CRP 08/26407 · leitura de 9 minutos
“O amor é um sentimento primitivo e irresistível, com o temperamento de uma criança mimada, corajosa, travessa e incompreensível.”
O caos de Eros
Eros, o Deus do amor, era o causador do caos. Suas flechas causavam um efeito irresistível em humanos, semideuses e deuses; ninguém era páreo para tal poder.
Tantos eram os prazeres possíveis — os sabores, o belo, os desafios — que esse efeito tornava a todos enlouquecidos. Nada se compara a viver o amor: é maravilhoso.
E, para o amor poder se tornar realidade, muitas vezes nos submetemos ao desprazer. Nós nos machucamos, nos colocamos em posições de submissão, agredimos, buscamos a riqueza e o conhecimento. Tantos são os movimentos do tabuleiro do amor, as tramas possíveis e as tragédias envolvidas, que estão em todo lugar: músicas, filmes, livros, fofocas, notícias.
Por que algo tão especial e importante se torna a problemática na vida de muitos? Por que tantas vezes nos coloca em um loop, pulando de um relacionamento a outro, sempre encontrando o amor, mas também a dor e o sofrimento?
Dentro da minha experiência clínica com casais, os que chegam são aqueles em que ainda há muito amor, mas a relação é percebida como algo caótico ou frígido — seja por complicações cotidianas naturais da vida humana, como demandas de trabalho, conflitos de projetos, incompatibilidade familiar ou esfriamento sexual.
Até aqui posso dizer que grande parte dos casais felizes tem como pano de fundo algo bem parecido com o casal em sofrimento. Mas, se o fundo é tão parecido, o que difere?
Por que tantas histórias de amor intenso dão errado?
“A sua forma de amar é protagonista do seu sofrimento.”
Aqui coloco a minha conclusão sobre o principal fator causador dessa infelicidade: a sua forma de amar pode ser a protagonista do seu sofrimento.
O amor é sentimento. A forma de amar é um processo cognitivo aprendido que influencia o nosso comportamento. Esse comportamento causa o desastre; então colocamos no banco dos réus o que é visível — o ato e a ação —, e não a causa.
Assim entramos de cabeça em um ciclo de relacionamentos frustrados que, mesmo cumprindo o papel de satisfazer nossos desejos, traz sofrimento, angústia e desespero.
Amor é sentimento; forma de amar é aprendizado
Essa esquemática acontece porque o sentimento mais próximo de quem ama é a falta. Em algum momento, entendemos que a inexistência de um amor resulta em um ser incompleto; que pouco amor é a possibilidade real de aniquilação e extinção daquilo que somos.
O medo desses sentimentos, desse fim trágico, é que nos faz muitas vezes exagerar ou negligenciar a intensidade na forma de praticar o amor.
Amar intensamente é querer tomar o outro para si, consumi-lo até que não sobre nada para perder. Amor de menos é não nos permitir sentir ou não querer viver aquilo que é do outro; é nos protegermos da possível perda, a todo custo — mesmo que o custo seja uma perda real.
A régua da intensidade
Não existe instrumento que meça isso, e o que vem a seguir não é dado de pesquisa. É a imagem que uso em consultório para conversar com casais sobre uma coisa difícil de nomear. Se pudéssemos representar a intensidade numa régua de zero a dez:
Movimente a régua
Uma metáfora clínica, não um teste.
A faixa que sustenta
É onde encontro, na clínica, casais que se mantêm felizes e duradouros. Há calor suficiente para o vínculo e espaço suficiente para cada um continuar existindo.
Isto é uma imagem de trabalho, não uma medida. Ninguém fica parado num número — a intensidade oscila, e o que importa é para onde ela costuma voltar.
Amor de menos: o frio
Na minha experiência como terapeuta de casais, os casais felizes, saudáveis e duradouros que encontro são os que se mantêm, nessa imagem, na intensidade entre sete e oito.
Abaixo disso, o frio começa a incomodar. Traz o arrepio da solidão e o sentimento de estar só. Quanto mais abaixo, mais a distância aumenta e nos tornamos inacessíveis.
As cores se tornam cada vez mais cinzas. Falta sexualidade; o contato se torna mecânico; a falta do outro já não incomoda e o receio da perda é inexistente. O final é, muitas vezes, o término de algo que sequer começou: um amor triste, inexpressivo. Esses términos costumam ser menos caóticos e mais adaptativos.
Amor demais: o incêndio
“O amor é como um sol vital porque aquece, ilumina e cria; porém, em demasia, é deletério porque secará a lavoura.”
Quando esse amor intenso perturba as paredes da nossa organização psíquica, sua expressão pode ser o ciúme descontrolado, a necessidade de controle e o sentimento de inexistência na ausência do outro.
Quando o amor vira sua antítese
O final clássico é o desmoronamento desse amor, que logo se transforma em sua antítese. Morre o amor e nasce o ódio; com ele, a repulsa e a aversão.
Assim, um relacionamento em que sobra amor tem o seu fim trágico justamente pela forma de amar. E muitas vezes esse fim chega para um enquanto, para o outro, começa a percepção de que aquela paixão e aquele calor já não existem. Em seu lugar está o frio sufocante.
A rachadura
A resposta defensiva é quase sempre parar de viver e começar a sobreviver. Morre a violência e entra a necessidade de salvamento; para o movimento caótico e entra a inanição.
É nesse momento que muitas vezes continuar o caminho fica muito difícil. Nós nos entregamos à depressão; há uma rachadura em nosso peito. E, para quem já passou por isso, essa rachadura é tão real quanto o chão em que caímos.
O mundo se torna preto e branco. O processo de cura, até permitirmos que as cores do mundo nos toquem novamente, é lento e penoso. Afinal, para aquele que se mantém inacessível, longe do sol, a única angústia possível é a percepção de não sentir. E essa, por um tempo, torna-se até suportável.
Não sentir nada é menos penoso do que sentir a falta. Mas não sentir é não viver, e aquele que não está vivo está morto. Quando conseguimos perceber a nossa quase morte, cria-se a necessidade natural de buscar a vida. Respiramos novamente.
Se você está nessa parte agora
A descrição acima fala de um estado que pode passar, ainda que enquanto dura pareça definitivo. Sofrimento intenso após um término não é fraqueza. Quando o desânimo se sustenta, tira o sono ou a fome, elimina o interesse por tudo ou traz a ideia de que não vale a pena continuar, é importante procurar avaliação profissional.
Se houver ideação suicida, planejamento, autolesão ou risco imediato, procure atendimento agora: CVV 188 (24 horas, gratuito), SAMU 192, CAPS de referência, UPA ou hospital mais próximo.
Se o seu amor fosse uma criança
E então, caro leitor, venho colocar você a refletir: qual é o seu modo de amar? Se o amor fosse uma criança, como seria essa criança?
A que ameaça ir embora
Simula a despedida, deixa a porta sempre aberta e anseia que a outra metade corra atrás. A prova de amor precisa ser repetida, e cada rodada exige uma dose maior. O outro se cansa antes de a prova bastar.
A que se torna inacessível
Busca atenção tornando-se difícil de alcançar, para que o outro fique se contorcendo para satisfazê-la. Consegue a atenção, mas não consegue recebê-la: quando chega, já não vale, porque foi arrancada e não oferecida.
A possessiva
Não suporta a existência do outro fora do vínculo: os amigos, o trabalho, o tempo sozinho. Confunde intimidade com fusão e lê cada espaço próprio como espaço roubado da relação.
A ressentida
Guarda cada falha como prova de que não é amada o bastante e cobra sem dizer o que quer. O outro passa a errar sem saber onde errou; a conta acumula em silêncio até vencer de uma vez.
Ninguém é só uma dessas crianças, e ninguém é a mesma em todas as relações. Reconhecer a sua não é receber um rótulo — é começar a enxergar o que se repete. E o que se repete pode ser trabalhado, porque a forma de amar foi aprendida.
Quase sempre é possível
Independentemente da sua forma de amar, quase sempre é possível construir uma relação saudável, criando um ambiente que aqueça nos momentos de frio e tenha uma fundação sólida, capaz de suportar o calor excessivo.
Lembre-se: amar é um sentimento poderoso, mas o modo de amar é um processo cognitivo aprendido a partir de nossa história e de nossas experiências. Podemos ressignificar, aprender a desacelerar e nos tornar mais compassivos com o outro.
No momento certo, com a pessoa certa, podemos sair do ciclo vicioso do amor trágico e construir uma relação que consiga lidar com os desejos de nossa criança interna — permitindo viver um amor livre, forte e verdadeiro.
O que a terapia de casal faz com isso
Quando um casal chega ao consultório, quase nunca o problema é simplesmente falta de amor. O que costuma faltar é acordo sobre a intensidade: um vive num número, o outro em outro, e cada um lê o lugar do parceiro como defeito de caráter. Quem está no nove acha o outro frio; quem está no cinco acha o outro sufocante. Os dois descrevem a mesma distância, de lugares diferentes.
Nomear a forma de amar de cada um
Antes de negociar, é preciso enxergar. Episódios recentes ajudam o padrão a aparecer como aprendizado, e não apenas como acusação.
Encontrar a distância em que os dois cabem
Não existe intensidade certa em abstrato; existe a que aquele casal consegue sustentar sem que um se apague ou o outro se sinta invadido.
Construir o que segura o calor
Combinados, previsibilidade e reparação depois da briga formam a fundação. Sem isso, todo aumento de intensidade pode virar incêndio.
Atendo casais presencialmente no Centro de Londrina e também online. Sobre quando faz sentido procurar ajuda, leia Terapia de casal funciona?.
Quando a forma de amar está causando sofrimento
A primeira conversa serve para compreender o padrão e indicar se o caminho é terapia de casal, psicoterapia individual ou outro cuidado.
Mensagem já escrita — é só enviar. Presencial no Centro de Londrina e online.
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Quando o medo do abandono organiza a forma de amar.
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Perguntas frequentes
Existe uma intensidade certa de amar?
Não em abstrato. A régua deste artigo é uma imagem de trabalho, não uma medida. O que existe é a intensidade que aquele casal consegue sustentar sem que um se apague ou o outro se sinta invadido.
Amar demais é problema?
A intensidade, sozinha, não é o problema. O que adoece é uma forma de amar que exige controle, apaga limites ou transforma autonomia em ameaça.
Dá para mudar a forma de amar?
Sim. Amor é sentimento, mas a forma de amar é aprendida a partir da história. O que foi aprendido pode ser reconhecido e ressignificado, embora isso não seja automático.
Por que repito o mesmo tipo de relação?
Porque padrões operam fora da consciência. Enquanto não são nomeados, cada relação parece um acontecimento novo causado apenas pela pessoa da vez.
Ciúme é sinal de amor?
Ciúme costuma sinalizar medo de perda. Quando exige checagem, restrição ou controle e passa a organizar o dia, precisa ser compreendido e trabalhado.
Há atendimento de casais em Londrina?
Sim, presencialmente no Centro de Londrina e também online. A indicação do formato depende da demanda e das condições de segurança do casal.
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