Nota do Autor
Como psicólogo, tive a oportunidade de conhecer centenas de histórias. Convenci-me de que, na maioria delas, eu me vejo como um observador assistindo a um filme, tentando colocar em sincronia o enredo contado, muitas vezes de forma assíncrona, pelo próprio paciente.
Porém, confesso que algumas vezes fui absorvido com tamanha força por essas histórias que perdi o lugar de observador, sendo jogado como um personagem para dentro delas. Nesses momentos, é difícil afirmar que eu não estava lá. A tristeza era tão profunda e a felicidade tão plena que me fizeram presente naquela cena, não mais olhando do assento seguro de quem assiste, mas exposto aos perigos de quem vive.
Talvez seja impossível escutar verdadeiramente uma história sem deixar alguma parte de nós dentro dela. Da mesma forma, acredito que também seja impossível sair completamente intacto depois de conhecer a dor de alguém.
Foi pensando nesse lugar incerto, onde o sofrimento de um começa a se confundir com a existência do outro, que nasceu O Terapeuta: As Crônicas de um Homem Mau.
Este é meu primeiro livro de ficção e será publicado em capítulos, acompanhando o próprio movimento de sua construção. A história apresenta Eduardo Vicente, psicólogo clínico de 36 anos, e um paciente que, depois de escrever onze cartas sobre a própria vida, oferece ao terapeuta um prazo de doze meses.
Eduardo deverá convencê-lo de que ainda existe alguma razão para continuar. O paciente, por sua vez, tentará provar que algumas pessoas não podem ser salvas e que, talvez, ninguém devesse gastar a própria vida tentando.
A cada mês, uma nova carta será apresentada. Entre lembranças, sessões, silêncios e confrontos, os limites entre o sofrimento do paciente e a vida de Eduardo começarão a desaparecer.
Esta é uma obra de ficção. Seus personagens e acontecimentos foram construídos para fins literários e não representam um relato clínico ou um modelo de atendimento psicoterapêutico.
O prazo
— Doutor, você já se perguntou o porquê do seu fracasso?
Por alguns segundos, Eduardo Vicente permaneceu em silêncio. Não sabia ainda se aquela pergunta se referia ao homem sentado à sua frente ou se, de alguma maneira, havia sido dirigida a ele.
O paciente segurava algumas folhas dobradas. Não parecia nervoso, talvez estivesse, mas, se estava, havia aprendido muito bem a esconder. Depois de olhar para Eduardo como se esperasse alguma reação, abriu a primeira folha e começou a ler:
— Que merda. Confesso que, de certa forma, nunca pensei que chegaria a este ponto. Durante muitas inquietações noturnas e dias inteiros de tortura mental, me vi cansado desta vida sem significado. Sinto como se ela quisesse escapar, como um líquido que escorre pelos meus dedos com uma fúria arrasadora. Quanto mais tento segurar, mais rápido ela parece desaparecer.
Eduardo continuou olhando.
— Às vezes penso que, se descobrisse algum sentido, um porquê, seja ele divino, filosófico ou qualquer porcaria escrita em algum livro barato que me convencesse de alguma coisa, isso certamente amenizaria a angústia de sentir essa essência escorrer todos os dias. Mas, no final, essa mesma consciência sempre se volta contra mim. Afinal, a ignorância é uma bênção. A inteligência permite antecipar nossa trajetória para o desastre, mas é completamente destruída pela falta de controle nos momentos mais importantes.
O paciente parou por um breve instante. Passou o polegar sobre a dobra da folha e continuou:
— Já tive dias melhores. Quando penso no passado, quase sempre me vem a cena de um sorriso com o rosto fragmentado. Parece que estou ali, sentado em meu triciclo azul, com pedais amarelos. Não consigo me lembrar de tudo, mas a sensação ainda está presente. É agradável. Por muito tempo não entendi a importância dessa lembrança, mas hoje percebo que, sem ela, talvez eu já tivesse desistido há muito tempo.
Eduardo notou a palavra, mas ainda não o interrompeu.
— Quando penso no agora, não consigo deixar de concluir que nós, humanos, estamos condenados, desde o nascimento, a conviver com a angústia de não ter aquilo que desejamos. A própria satisfação do desejo nos leva novamente para a falta, porque só é possível querer aquilo que não se tem. Quando finalmente temos, ganhamos outra coisa: o medo de perder. Então, doutor, a dor é inevitável?
O homem levantou os olhos da carta.
— Um dia desejei ter um trabalho. Hoje já não posso desejá-lo porque o tenho, mas o medo de perder continuará até o dia em que essa perda se concretizar. A vida funciona da mesma forma. Só paramos para desejá-la quando a perda parece próxima, seja por uma doença, por um afastamento ou pela morte. Quando tudo parece garantido, nossos pensamentos nos levam a desejar outras coisas.
Dobrou levemente uma das pontas do papel.
— Será que estou errado por estar cansado de tudo isso?
Eduardo respirou antes de responder.
— Penso que isso deve acontecer, de alguma maneira, com todos. Com os românticos, os melancólicos, os doentes e até com aqueles que parecem maravilhados pela vida. Mas tudo isso também não poderia ser olhado por outro prisma?
O paciente não respondeu.
— A falta, com todo o terror que carrega, também pode fazer com que pequenas coisas, antes insignificantes, sejam finalmente percebidas. O que significa um abraço para um filho que sempre se sentiu amado? Talvez pouco. Mas, para aquele que passou a vida inteira com dúvidas sobre o amor, um abraço dado no momento certo pode mudar sua trajetória.
— Um abraço?
— Foi um exemplo.
— O senhor acredita mesmo nisso?
Eduardo percebeu uma pequena mudança na voz. Não era deboche. Pelo menos, não apenas isso.
— Acredito que algumas experiências podem mudar uma trajetória.
— Mesmo depois de tudo?
— Eu ainda não sei o que significa esse “tudo”.
O paciente olhou novamente para a carta, mas não continuou a leitura.
— Vejo que você já pensou bastante sobre isso — disse Eduardo. — Por que acredita que eu possa fazer alguma coisa? Por que me procurou?
O homem voltou a dobrar as folhas com cuidado.
— Eu pesquisei muito sobre o senhor antes de me sentar aqui. Li seus textos, vi algumas coisas sobre o seu trabalho e tentei entender que tipo de pessoa estaria do outro lado quando eu finalmente dissesse tudo isso.
— E o que descobriu?
— Que o senhor acredita que as pessoas podem ser salvas.
— Eu não usaria exatamente essa palavra.
— Mas foi ela que eu escolhi.
Eduardo deixou o silêncio voltar. O paciente parecia precisar dele para continuar.
— Eu nunca tive o controle, doutor. Pelo menos não quando realmente precisava. Mas, antes de vir procurar o senhor, pensei muito. Essa carta é apenas uma das crônicas da minha história. Escrevi tentando entender por que esse sofrimento me persegue e por que, mesmo depois de compreender tantas coisas sobre mim, continuei no mesmo lugar.
— Você falou que talvez já tivesse desistido.
— Falei.
— O que significa desistir?
O paciente olhou diretamente para Eduardo.
— O senhor sabe o que significa.
— Preciso ouvir de você.
— Significa morrer.
A palavra não pareceu assustá-lo. Saiu de sua boca sem esforço, quase com a naturalidade de quem falava sobre algum compromisso marcado para o fim da tarde.
— Você está pensando em suicídio? — perguntou Eduardo.
— Estou.
— Pretende fazer isso agora?
— Não. Se pretendesse fazer agora, eu não estaria aqui.
— Estar aqui não elimina essa possibilidade.
O paciente esboçou um sorriso.
— Essa resposta foi melhor do que a do abraço.
Eduardo não sorriu.
— Existe uma decisão tomada?
— Existe. Mas decidi que, pelo menos no meu ato final, eu teria algum controle. Essa decisão foi tomada poucos minutos antes de agendar a consulta com o senhor.
— E o que fez você agendar?
— Talvez covardia. Talvez curiosidade. Ou algum indício, escondido em algum lugar da minha mente, de um desejo de continuar. Não quero parecer mais esperançoso do que realmente sou.
— E por que eu?
O paciente demorou um pouco mais para responder.
— Acho que escolhi o senhor para sofrer comigo.
Eduardo sentiu o peso da frase, mas permaneceu em silêncio.
— Talvez isso faça de mim um homem mau. Eu poderia ter escolhido alguém que não acreditasse tanto, alguém que apenas escutasse, concordasse com a cabeça e dissesse que tudo levaria tempo. Mas escolhi alguém que parece ter feito da própria vida uma tentativa de ajudar outras pessoas.
— Para que eu o ajude?
— Também.
— O que mais?
O paciente se inclinou levemente para a frente.
— Para provar que o senhor está errado.
— Sobre o quê?
— Sobre valer a pena salvar alguém.
Eduardo percebeu que aquela não era apenas uma pessoa pedindo ajuda. O homem parecia ter chegado ao consultório carregando uma tese e precisava que alguma coisa, ou alguém, se tornasse a prova final dela.
— Você continua vivo — disse Eduardo.
— Continuo.
— Mesmo acreditando em tudo o que acabou de ler.
— Sim.
— Então alguma coisa ainda o mantém aqui.
— Ou talvez eu só não tenha encontrado coragem suficiente para ir embora.
— Você chama de coragem. Eu ainda não sei se é disso que se trata.
— É justamente por isso que lhe darei uma oportunidade.
Eduardo franziu discretamente a testa.
— Uma oportunidade?
— Doze meses.
— Para quê?
— Para que o senhor me faça mudar de ideia.
— A sua vida não pode ser colocada sob a responsabilidade de uma resposta minha.
— Não estou colocando minha vida sob sua responsabilidade. Estou oferecendo ao senhor a chance de defender aquilo em que acredita.
— Isso não é um jogo.
— Eu sei. Se fosse, seria mais fácil.
O paciente colocou a carta sobre a mesa.
— Nos últimos dois anos, escrevi onze cartas como essa. Cada uma fala de um momento da minha vida, das pessoas que passaram por ela e das decisões que me trouxeram até aqui. Algumas são sobre coisas ruins. Outras, sobre coisas que deveriam ter sido boas, mas que, por algum motivo, não foram — ou simplesmente não suportaram este mundo.
Eduardo olhou para a folha.
— Uma carta por mês?
— Uma carta por mês. O senhor poderá perguntar o que quiser. Poderá discordar, interpretar, procurar algum trauma escondido, alguma falta, algum desejo ou qualquer explicação que torne a minha existência suportável.
— E você fará o quê durante esses doze meses?
— Vou tentar entender por que o senhor insiste em salvar pessoas.
— E se não encontrar uma resposta?
— Talvez o senhor também deixe de encontrar.
Eduardo finalmente compreendeu que o paciente não pretendia apenas demonstrar que sua própria vida não valia a pena. Ele queria levá-lo ao mesmo lugar. Queria que, ao final daqueles doze meses, Eduardo olhasse para suas certezas e já não reconhecesse nenhuma delas.
Se conseguisse fazer o terapeuta desistir, então talvez estivesse certo desde o início.
— E no décimo segundo mês? — perguntou Eduardo.
O paciente olhou para a carta que agora repousava entre os dois.
— A última eu ainda não escrevi.
— Por quê?
— Porque a última carta, doutor, eu vou escrever aqui.
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