NovidadeObra autoral de Henrique Oliveira
O Terapeuta
As Crônicas de um Homem Mau
Um paciente. Onze cartas. Doze meses para descobrir se alguém pode ser salvo — e quem realmente precisa ser salvo.
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Por Psicólogo Henrique Oliveira — CRP 08/26407 · leitura de 8 minutos
Por que desejamos o que nos faz mal — e por que a falta não se resolve
A corrente do rio
Nossa vida segue como a corrente de um rio, numa direção muitas vezes incontrolável para a satisfação dos desejos. Até quando dormimos desejamos: gozamos e também somos atormentados pela insatisfação de não poder ter aquilo que se quer.
Somos, em alguma medida, escravos desse movimento. Não escolhemos conscientemente o objeto que desejamos; não escolhemos quem amamos. Por ele nos colocamos em situações que vão de um ato cotidiano a uma violência mortal.
Não escolhemos o que desejamos
O suicida deseja parar de sentir a dor que o atormenta; o sádico deseja a dor do outro; o narcisista deseja, acima de tudo, a si próprio. Gula, avareza, inveja, ira, soberba, luxúria e preguiça: todos podem tornar-se cúmplices dos desejos.
O que se deseja nem sempre é aquilo que é agradável ou aquilo que traz felicidade. Nós, inteligentes construtores de navios e prédios, futuros viajantes planetários, somos frágeis diante de algo tão próximo e que aparenta estar sob nosso controle.
O que Freud descobriu sobre o objeto proibido
Freud tentou reduzir esse desconhecimento ao mostrar que o desejo não se organiza apenas pelas decisões conscientes. A lei do mundo externo obriga a reprimir objetos proibidos, mas a libido — a energia investida no desejo — encontra outro caminho: desloca-se e investe em outro objeto.
Será o objeto desejado algo real, insubstituível, a peça faltante de nossa completude? Ou vivemos na falta de algo jamais encontrado e buscamos satisfação em objetos que funcionam como substitutos?
O objeto reencontrado
Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Freud formula que encontrar um objeto é, na verdade, reencontrá-lo. O objeto adulto repete, sem reproduzir por inteiro, uma satisfação primeira. Na leitura lacaniana, essa busca se organiza como uma cadeia: um objeto aponta para o seguinte, e nenhum encerra o movimento.
O objeto procurado por nossos desejos não é simplesmente o objeto real. Ele é atravessado por imagens, fantasias, repressões, defesas e cadeias de significantes. Por isso podemos ter aquilo que julgávamos querer e, ainda assim, descobrir que o movimento não terminou.
A cadeia metonímica
Clique para revelar como um objeto pode ser sucedido por outro.
A cadeia não termina, e isso não é defeito seu. Cada objeto satisfaz por algum tempo e devolve a falta. A proposta não é encontrar “o certo”, mas compreender a busca e escolher o que fazer com ela.
O desejo é sempre desejo do Outro
O desejo e o objeto estão presentes em nossas atividades pulsionais. Aquilo que é desejado está além da pessoa amada: o amor também vive na ordem do deslocamento e pode levar o apego ao ponto do próprio aniquilamento.
O desejo situa-se na fantasia. Nosso primeiro encontro com ele acontece no campo do desejo do outro — no olhar desejante de quem primeiro cuidou de nós. Seremos, por isso, seres faltantes, em busca de algo que não vemos nem compreendemos por inteiro: uma sensação à espera de ser nomeada.
E o analista, nessa dramaturgia?
O trabalho não consiste em satisfazer de imediato tudo o que o paciente pede nem em substituir a decisão dele pela do terapeuta. Em Linhas de progresso na terapia psicanalítica (1919), Freud relaciona a técnica à manutenção de desejos não realizados: o material do desejo precisa poder aparecer e ser trabalhado, em vez de ser simplesmente atendido dentro da relação terapêutica.
Isso não é frieza. É uma posição técnica: escutar o pedido, reconhecer o que se repete nele e não ocupar o lugar de quem promete completar aquilo que nenhuma pessoa consegue completar.
A falta que não se preenche
A busca pela peça faltante não difere da chuva que sempre termina no chão. Porém, o desenvolvimento subjetivo da história pode mudar a direção desse encontro e a qualidade dele. Para construir significados próprios, é preciso compreender o jogo psíquico e reconhecer as cartas que estão na mão do inconsciente.
Podemos ter tudo e sentir que não temos nada. Nessa falta, nessa infelicidade que parece surgir sem motivo e nessa busca constante por melhoramento, você não está sozinho. O único caminho possível para a inexistência da falta é a morte: choramos ao nascer desejando o ar nos pulmões e, no leito de morte, desejaremos com ainda mais intensidade esse mesmo ar. O desejo do começo permanece mesmo no fim.
Glossário para acompanhar o texto
Desejo
Não é o mesmo que vontade ou necessidade. Produz-se na diferença entre o que se pede e o que se obtém — por isso não se satisfaz plenamente.
Objeto
Aquilo para onde a pulsão se dirige: uma pessoa, atividade, substância ou ideia. Não é apenas uma “coisa”.
Pulsão
Força constante, com origem no corpo, que empurra em direção a alguma satisfação. Diferentemente do instinto, não possui objeto fixo.
Libido
A energia investida num objeto, que pode ser retirada dele e investida em outro.
Repressão
Operação pela qual algo inaceitável à consciência é mantido fora dela — e continua atuando.
Deslocamento
O caminho pelo qual a libido, impedida de alcançar um objeto, investe em outro relacionado ao primeiro.
Metonímia
No desejo, é o movimento pelo qual buscamos sucessivos substitutos de algo que não pode ser plenamente alcançado.
Objeto reencontrado
A ideia de que o objeto adulto repete uma satisfação primeira e perdida: busca-se reencontrar, não encontrar pela primeira vez.
Quando a falta vira sofrimento clínico
A falta é constitutiva e não há existência humana sem ela. A insatisfação depois de conquistar o que se queria não é, sozinha, um sintoma. Há, porém, um ponto em que a busca passa a imobilizar: cada conquista é imediatamente esvaziada; o vazio se torna constante; relações repetem o mesmo enredo; aparece a sensação de viver a vida de outra pessoa; ou surgem desânimo persistente, perda de interesse e insônia.
A psicoterapia de orientação psicodinâmica trabalha esse material não para preencher a falta, mas para que a pessoa possa fazer algo com ela que não seja repetir.
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Perguntas frequentes
O que a psicanálise quer dizer com “desejo”?
Não é vontade nem necessidade. É o que se produz na distância entre o que pedimos e o que recebemos; por isso não se satisfaz de uma vez.
Por que a gente deseja o que faz mal?
Porque a escolha do objeto não é inteiramente consciente nem racional. Ela se organiza a partir das primeiras experiências de satisfação e das proibições que as acompanharam.
É possível parar de sentir falta?
Não. O que pode mudar é a relação com a falta e a possibilidade de não repetir sempre o mesmo movimento diante dela.
Isso significa que nunca serei satisfeito?
Significa que satisfação plena e permanente não é um estado disponível. Reconhecer isso costuma aliviar o peso da crença de que a falta já deveria ter acabado.
Qual a diferença entre isso e ser insatisfeito?
Clinicamente, interessa o que a pessoa faz com a insatisfação — especialmente quando ela organiza uma busca que se repete com o mesmo desfecho.
Preciso entender psicanálise para fazer terapia?
Não. A teoria orienta o profissional; o processo se faz com a sua história, não com vocabulário técnico.
Referências conferidas
- ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, Livro III.
- FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905).
- FREUD, S. Linhas de progresso na terapia psicanalítica (1919).
Texto autoral de Henrique Oliveira, originalmente publicado em 20/03/2021. Conteúdo informativo; não substitui avaliação psicológica.
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