
O Terapeuta · Capítulo 2
Depois da sessão
As Crônicas de um Homem Mau
Henrique Oliveira
— Bem, chegamos ao final do nosso tempo — disse Eduardo.
O silêncio pairou no ar por alguns segundos. Dessa vez, encerrar a sessão não pareceu um gesto protocolar. Eduardo se sentiu anestesiado, como nas primeiras vezes em que havia se deparado com a depressão no consultório. Mesmo depois de tantos anos, alguma coisa ali era diferente. Precisou pensar em cada palavra antes de continuar.
— Espero que possamos nos reencontrar na próxima semana. Entendo que a situação é difícil, mas fico feliz que você tenha escolhido me procurar. Isso é um sinal de quem está lutando. Afinal, por que alguém continuaria cavando um poço se já tivesse desistido de matar a própria sede?
O paciente ouviu com espanto. Aquelas palavras não pareciam ser as que esperava. Mesmo sabendo que a sessão havia terminado, continuou sentado, com os olhos fixos em um dos quadros da sala. Parecia esperar alguma coisa.
Eduardo se levantou, foi até a mesa e tentou disfarçar o desconforto. Por um momento, sentiu-se um estranho na própria sala, como se aquele lugar não lhe pertencesse.
Alguns minutos depois, o paciente se levantou, aproximou-se dele e disse:
— Doutor, nos vemos na próxima semana.
A fala soou irritada aos ouvidos de Eduardo. Ainda tentando compreender o que o havia atingido, olhou para o relógio: 16h10. Vários minutos tinham passado desde o encerramento. Ele havia perdido a noção do tempo.
Sentiu-se fraco. Pensou em encerrar o dia ali, mas a paciente seguinte já estava ficando ansiosa com o atraso. Respirou fundo e lembrou que quem o esperava provavelmente precisava do seu acolhimento e da sua compreensão. A paciente das 16h havia perdido a mãe há pouco tempo. Eduardo precisava tentar ser aquilo que se esperava dele.
Várias sessões se passaram até que o relógio marcou o fim do último atendimento do dia. Eduardo já havia encerrado milhares de sessões, mas, naquele dia, alguma coisa era diferente. Ainda não tivera tempo de pensar no que havia acontecido com o paciente da sessão das 15h.
Foi até a sacada. Olhando os prédios ao redor, começou a repassar o que tinha escutado. Uma lembrança da infância lhe veio à memória. Sentiu a espinha gelar. Imediatamente, pegou o telefone e ligou para a mãe.
Teria sido a conversa com o paciente das 15h que trouxera aquele fragmento da infância à sua consciência? Ou o cansaço fizera Eduardo se voltar para os próprios sentimentos, trazendo à tona memórias até então reprimidas?

Na manhã seguinte, Eduardo foi à própria terapia. Mais atrasado que de costume, chegou apressado e ofegante.
— Eduardo, percebo você um pouco mais distante hoje. Em que está pensando? — perguntou Camila.
Ele olhava para longe, como se ainda estivesse em outro lugar. Respirou profundamente antes de responder.
— Camila, nunca pensei que fosse me sentir tão despreparado de novo. Depois de anos ouvindo histórias, pensei que nunca mais fosse preferir o silêncio. Poder escolher não ter o que falar.
— Como assim, Eduardo?
Ele deu um sorriso, tentando aliviar um pouco a tensão.
— Essa semana aceitei um paciente novo. Ele veio com uma história estranha. Tenho a impressão de que já sabe tudo o que vai me dizer. Em certo momento, me senti tão vulnerável… Parecia que eu estava num jogo de cartas em que ele controlava o baralho inteiro. Pode ser cansaço. Venho atendendo muito.
— Isso tem alguma coisa a ver com a Ana?
Eduardo se espantou com a associação.
— Não, claro que não. Isso já faz tempo. Ele só me pareceu muito diferente. Pode ser coisa da minha cabeça também, mas não tem nada a ver com a Ana. Não quero falar disso hoje.
— Eu entendo que você não queira, mas em algum momento precisamos falar dela. Em dois anos, você quase não toca nesse assunto. E agora me diz, de novo, que se sentiu despreparado e vulnerável. Fale um pouco mais sobre ele.
— Acho que pode não ser nada. Ele me contou uma história estranha, disse que tinha escrito cartas para levar às sessões.
— E?
— Como você é insistente… E que a última nós iríamos escrever juntos. Me pareceu uma carta de despedida. Sinceramente, não consegui entender muito bem o que estava acontecendo, nem o que ele queria. Por um minuto, pensei que ele sabia quem eu era. Que aquilo tudo tinha sido pensado especialmente para mim.
— Por que você não considera encaminhá-lo para outra pessoa? Parece que isso está custando muito caro para você. Se continuar assim, vai acabar ficando paranoico. Aliás, já está.
— Pode ser. Tenho que pensar melhor. Talvez eu só estivesse cansado de tudo. Desde a Ana, você sabe…
— Na verdade, eu não sei. Você nunca abre essa janela. Às vezes, consigo enxergar alguma coisa pelas frestas que você não consegue esconder.
— Acabei esquecendo de falar da lembrança que me veio ontem. Me lembrei de uma pipa azul que eu observava no céu quando era criança. Mas falamos disso na próxima semana.
O relógio marcava, outra vez, o final da sessão. Eduardo, tão acostumado a conduzir os encerramentos, olhou para ele e se adiantou. Levantou-se rapidamente e foi em direção à porta.
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