
O Terapeuta · Capítulo 3
Uma ironia do destino
As Crônicas de um Homem Mau
Henrique Oliveira
Quando percebeu que o relógio marcava 14h55, Eduardo se arrepiou, como se uma brisa gelada tivesse passado por ele. A apreensão já era visível durante a sessão. Estava menos atento que de costume. Seus olhos procuravam a porta com frequência, e a preocupação com o horário era difícil de esconder.
A impressão era de que alguma coisa estava por vir. Olhava para o relógio, mas parecia se recusar a aceitar que os minutos continuavam passando. Como se negar o avanço dos ponteiros pudesse protegê-lo daquele futuro imprevisível que havia imaginado.
— Doutor, acho que chegamos ao nosso horário. Vou indo. Até a próxima semana, né?
Envergonhado por aquela breve desconexão, que não lhe permitira conduzir o encerramento, Eduardo acompanhou a paciente até a porta e se despediu.
Só então voltou a pensar no desafio que o esperava. Olhou outra vez para o relógio: 15h10. O paciente estava atrasado? Ou havia desistido?
Sentiu apreensão e alívio ao mesmo tempo. De um lado, o medo do que poderia ter acontecido. Do outro, a ideia de que todo aquele temor perderia o sentido se não houvesse continuação.
Mas então a porta se abriu. Ele não tinha se livrado.
Eduardo respirou fundo. De onde estava, observou o paciente sentado na sala de espera, de um ângulo em que ainda se sentia protegido. Naquele momento, não havia mais o que fazer. Vivia dizendo aos outros que era preciso bancar as próprias escolhas e que as coisas geralmente pareciam piores do que realmente eram.
— Sente-se, por favor. Vamos continuar de onde paramos ou você deseja ir por outro caminho?
— Vou ler para você a próxima carta. É a história do dia em que ganhei quase tudo. Creio que, no início, soei um pouco melancólico, mas você vai me entender no final. Não é como se tudo tivesse sido sempre ruim. Confesso que, muitas vezes, mesmo tendo tudo, nunca entendi por que acabava me sentindo insatisfeito, infeliz. Quase como se tivesse sido criado para me sentir assim.
A próxima carta
Em 2001, eu tinha 10 anos. Me lembro de que o que eu mais tinha naquela época talvez fosse aquilo que sempre quis.
Vagamente, me vem a lembrança da Praça dos Pombos. Um lugar pacato, com bancos e um parque de brinquedos velhos. Nada especial, mas o suficiente para causar um sorriso. É uma lembrança estranha, calorosa e fria ao mesmo tempo.
Era um dia ensolarado, com poucas nuvens no céu. Eu estava ali com a bicicleta nova que acabara de ganhar, à espreita de uma oportunidade. Podemos dizer que estava em busca da felicidade. Queria muito que alguém me notasse. Tinha ganhado aquele presente foda, uma coisa rara para um menino do meu bairro. Só quem teve sabe do que estou falando.
Mas, voltando àquele dia, lembro que o anoitecer já estava à espreita e eu continuava ali, sentado no chão, debaixo de uma árvore, olhando para cima e pensando nas bobagens normais de um garoto daquela idade.
Foi quando a desajeitada Carolina, sem perceber, cometeu o pior erro da vida dela. E, para mim, o melhor. Era a melhor coisa que o acaso poderia me oferecer.
Ela vinha correndo atrás de alguma coisa. Até hoje não sei exatamente do quê. Confesso que acredito que mentiu sobre estar correndo atrás de algo, provavelmente pela vergonha de dizer que só tinha feito aquilo para me conhecer. Ou, o que considero menos provável, sua dificuldade para enxergar quase tudo à frente provocou aquele encontro inesperado. Bem, eu fico com a primeira hipótese. Mas você pode tirar a sua própria conclusão.
O mais importante veio depois. Naquele momento, eu estava sendo atropelado. A vítima de um acaso. Para um garoto de 10 anos, era uma situação extrema, e várias coisas ruins poderiam sair dali. Eu poderia xingá-la de tudo quanto era nome por ter me esmagado. Ou, o que talvez fosse mais provável, sair correndo sem dizer nada.
Mas aconteceu o menos provável. E, pode-se dizer, um dos meus poucos acertos. Eu apenas perguntei:
— Ei, você está bem?
Pode soar estranho vindo de mim, mas às vezes uma única frase tem um efeito arrasador sobre o nosso futuro. Digo isso porque, depois daquela pergunta, nada, mas nada mesmo, foi igual. Pelo menos não para mim. Talvez para Carolina também. Nesse caso, só ela poderia afirmar.
Eduardo notou que o paciente estava emocionado e tinha dificuldade para continuar a leitura.
Continuação da carta
Não entendo bem o que ela ouviu. Era um pouco mais velha, dois anos para ser exato. Quando perguntei se estava bem, ela olhou no fundo dos meus olhos. Foi uma sensação estranha. Parecia que tinha encontrado alguma coisa. Mas o quê?
Ficou me olhando por alguns segundos. Vinte, trinta, talvez. Para mim, foram horas. Confesso que sempre senti, de alguma forma, que havia algo em mim que não fazia sentido. No começo, fiquei com medo do que ela pudesse ter encontrado.
Mas ela sorriu.
Talvez tivesse conseguido enxergar alguma coisa que eu ainda não conseguia perceber. É estranho dizer, mas fiquei feliz mesmo sem entender. Afinal, ela sorriu, não foi?
Aprendi, depois de uns longos anos, que muitas vezes é melhor ficar apenas com aquilo que percebemos, sem perguntar o porquê de tudo. É simplista, eu sei. Mas a gente adora criar problemas, e o que realmente importa é aquilo que sentimos.
Bem, continuando. Depois daquele olhar e daquele sorriso, ela me abraçou e chorou.
Por quê?
O paciente fez uma pausa e olhou diretamente nos olhos de Eduardo, como se procurasse alguma coisa. Eduardo percebeu aquela busca.
— Penso que, às vezes, o mais importante é aquilo que sentimos. E creio que você está certo. Não precisamos ficar procurando problemas que não estão à nossa frente.
O paciente voltou à carta.
Continuação da carta
Naquele momento, com 10 anos, eu jamais entenderia. A vida não brinca. Só fui compreender o que de fato tinha acontecido muito tempo depois. Uns oito anos depois, para ser exato. Um pouco tarde, eu sei. Mas vou explicar.
Você se lembra de que ela tropeçou em mim, ali debaixo da árvore, enquanto eu divagava? Pois bem. Aquela corrida atrás de alguma coisa era, na verdade, uma tentativa frustrada de fugir de uma realidade um tanto quanto perversa.
Carolina tinha acabado de fugir do enterro do irmão mais velho.
Ele tinha 15 anos. Morreu num desastre causado pela inconsequência de uma daquelas pessoas más de que falei no início. Gente sem escrúpulos que, na corrida para satisfazer o próprio desejo, acaba com a vida de outra pessoa.
Talvez o que ela procurasse em mim naquele momento fossem os olhos do próprio irmão. Ou alguém que a compreendesse.
O irmão tinha sido atropelado por um homem bêbado que, depois de ser rejeitado pela mulher, acelerou o carro querendo acabar com a própria vida.
É estranho como a vida é injusta. Foi isso que fez com que eu a conhecesse. Tornou aquele dia o melhor da minha vida. Eu tinha tudo: minha bicicleta nova e Carolina ali, precisando de mim. Duas coisas reais que eu tinha conseguido naquele dia.
O paciente fez uma breve pausa e continuou a leitura.
Continuação da carta
Ela tinha perdido tudo. Era o pior dia da vida dela.
Eu sei que é trágico e posso soar narcisista, mas aquele acidente, aquele homem, levou Carolina diretamente para mim. Ela não tinha nada, e isso fez do meu abraço um tudo. Talvez, por um longo tempo, eu tenha sido dono daquele sorriso marcado pela tragédia. Eu me tornava a única coisa entre a dor da morte do irmão e a felicidade de ter alguém.
— Penso que é sempre melhor sofrer junto de alguém do que sofrer sozinho — disse Eduardo. — Mesmo que você se sinta mal por ter conhecido Carolina por causa de uma tragédia, ela poderia ter terminado aquele dia sozinha, sem o conforto de encontrar alguém.
— Talvez você esteja certo. Mas, depois de muito tempo pensando naquele dia, comecei a duvidar do destino. Se existe algum Deus, ele deve ficar fascinado com esses momentos em que a felicidade de um é conquistada no sofrimento profundo da alma do outro.
Aquela sessão parecia estranhamente mais leve que a anterior. Eduardo não entendia muito bem o que estava sentindo. Esperava ataques diretos, mas o paciente parecia ocupar outro lugar naquele dia. O ar ainda era melancólico, mas menos agressivo.
Chegou ao fim mais uma sessão. Dessa vez, o paciente olhou para o relógio, levantou-se e saiu da sala sem se despedir.
Eduardo ficou ali parado, olhando. Olhando.
Deixe um comentário