
O Terapeuta · Capítulo 4
Seria a morte um desejo ou sonho?
As Crônicas de um Homem Mau
Henrique Oliveira
Alguns minutos após a sessão com o paciente das 15h.
Eduardo respirou aliviado. Tinha se preparado para aquele momento. Como o bom lutador que sempre fora no campo dos pensamentos, esperava um embate de crenças teóricas e filosóficas com aquele que, até então, parecia querer ser seu carrasco.
Agora, porém, pairava uma dúvida: as próximas sessões seriam assim? Por que aquele paciente tão misterioso havia saído tão depressa, como se tivesse se esquecido de alguma coisa?
Talvez tivesse sido um erro pensar tão mal de alguém que lhe parecera tão cruel na primeira sessão. Teria falhado na escuta? No acolhimento? Na interpretação teórica? Para Eduardo, sentir-se míope diante desses elementos trazia uma mistura de curiosidade e tensão.
Um pouco distraído, mordiscava uma caneta à beira da janela quando percebeu que Carla, sua paciente das 16h, já estava à espera.
A porta se abriu, e assim começou mais uma sessão.
— Eduardo, vou te contar uma coisa. Não sei se isso é importante, mas ontem tive um sonho estranho. Eu estava numa festa, todos estavam felizes, e minha mãe estava lá, com todo mundo em volta dela. Só que eu estava distante. Não conseguia falar com ela, nem ouvir o que estavam dizendo. Tentava me aproximar, mas não conseguia.
— Talvez esse sonho reflita como você se sente em relação à perda da sua mãe. A morte de alguém amado é, com toda certeza, uma das piores tragédias que podem nos atingir. É um ponto final que sabemos ser inevitável, mas que muitas vezes não conseguimos aceitar. No fim, sempre desejamos a vida.
Eduardo continuou:
— Freud dizia que os sonhos podiam realizar desejos. Coisas que, por algum motivo, nos eram impossíveis ou impedidas enquanto estávamos acordados. A paixão não correspondida faz um inferno na nossa cabeça e também encontra seu lugar nos sonhos. Às vezes, parece que os cupidos usam esse espaço para se divertir, gozando das nossas frustrações, dos nossos amores não correspondidos. É interessante como aquilo que tanto queremos parece estar ali, à nossa espera. Próximo, mas inalcançável.
— Pela sua história, creio que o desejo de rever sua mãe seja muito mais forte do que qualquer romance ou amor que você já viveu, não?
— Acho que pode ser isso. Ando com muita saudade dela. Tenho me lembrado de algumas coisas… Você sabe que eu nunca me afastei da minha mãe. Morei com ela a vida toda. Agora, não sei exatamente o que fazer. Já se passaram três meses, e ainda sinto que estou esperando ela voltar de algum lugar.
Carla fez uma pausa antes de continuar.
— Aconteceu uma coisa importante que ainda não te contei. Fiquei sabendo que uma amiga da minha mãe morreu esta semana. Quando recebi a notícia, fiquei muito feliz.
Eduardo demorou um pouco a acompanhar aquela conclusão. A paciente parou ali, olhando para ele. A emoção parecia estranha, fora do lugar. Felicidade com a morte de alguém?
Visivelmente inquieto com a mudança de rumo da conversa, perguntou:
— Carla, não entendi muito bem o que você quis dizer. Estávamos falando da dificuldade de perder sua mãe, desse sonho em que você tenta se aproximar dela… Por que saber da morte da amiga dela te deixou tão feliz? Confesso que achei que você fosse por outro caminho, mais melancólico. Eu entenderia se você me dissesse que parece que todos estão partindo.
Carla recuou no assento. Por um segundo, pareceu não compreender o que Eduardo acabara de dizer, como se tivesse ouvido algo sem sentido. Era um espanto parecido com o que ele próprio havia sentido instantes antes.
— Por que você ficou surpreso com o que eu disse? Tive a impressão de que te surpreendi.
Ela continuou:
— Doutor, sabe… Eu ainda estou feliz pela morte da amiga dela. Minha mãe agora não está sozinha. A amiga dela morreu para ficar com ela. Como é que eu posso ficar triste? A única coisa que me incomoda é que eu é que gostaria de ter ido ficar com ela.
— Ficar com ela? Como seria possível você ficar com ela?
— Naquele sonho, era eu que deveria estar com ela.
O relógio bipou. Era o fim da sessão de Carla.
Eduardo se levantou para abrir a porta. Enquanto caminhava, percebeu a presença de alguém na sala de espera. Congelou. Por um momento, perdeu-se no temor dos próprios pensamentos.
Sentada ali, de cabeça baixa, estava Ana Sofia.

Uma antiga paciente que, havia muito tempo, fizera parte de alguns dos seus piores pesadelos.
Se a paixão podia ser representada por anjos e cupidos felizes, infantis, seria Ana Sofia a personificação de Tânatos na vida de Eduardo? Em sua imaginação, ela tinha asas negras e olhos escuros, profundos como o mar na ausência de luz.
Seria ela a personificação da morte?

Eduardo se sentia como quando estivera diante do paciente das 15h. Teria aquele homem alguma coisa em comum com Ana Sofia?
Os olhos claros dele eram diferentes dos de Ana, mas a escuridão parecia incrustada nos dois. A presença dele, porém, lembrava mais Érebo, nascido diretamente do Caos, do vazio.

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